Se você tem só um dia para explorar a região portuária de Marselha e quer
otimizar seu tempo, sem perder a cultura e o charme dela, precisa ler esse artigo.

Roteiro Charmoso de Um Dia

Estive recentemente em Marselha em uma escala de cruzeiro e tinha apenas um dia para revisitar essa cidade historicamente tão rica e cheia de pontos de interesse importantes. Digo revisitar porque morei muitos anos em Paris e estive diversas vezes no sul da França e, por consequência, em Marselha, contudo tinha muitos anos que não ia à cidade, além disso, o tempo era curto pois precisava reembarcar no horário para não perder o navio.

Adicionado a isso, um agravante, precisava comprar um cabo para o ipad, pois estava palestrando sobre os destinos culturais no teatro do navio e o cabo não estava carregando. Portanto, a missão era fazer um rápido reconhecimento de terreno, encaixar as coisas legais que podia fazer nas redondezas e tentar não desperdiçar o dia. Queria ver muita coisa, mas quando se tem poucas horas para decidir o que fazer é preciso ter foco, então optei por fazer o máximo que podia numa área bem próxima ao porto.


A História Resumida

“Vue du Cours Pendant la Peste” (Michel Serre – 1720) – Museu de Belas Artes de Marseille

Com 2600 anos, Marselha é a cidade mais antiga da França e tem boas razões para ser uma das mais importantes também. A começar pelo nome “Marseille” que deu origem ao hino francês “La Marseillaise” e por ser um ponto de luta e resistência em tempos de guerra, sobreviver a invasões piratas, ocupações mouras, epidemias, demolições, além de ser o maior porto comercial da França e um dos mais importantes de toda a Europa.

A história de Marselha começa em 600 A.C. quando foi fundada pelos gregos e recebeu o nome de “Massalia” o que explicaria o atual “Marseille”, contudo há outros que acham que poderia ter origem fenícia, céltica ou latina. Depois dos gregos viriam os romanos, os visigodos e posteriormente a cidade teria o domínio dos francos.

Por sua condição de porto, ela seria uma das portas de entrada para a peste bubônica na Europa na idade média, provocando a morte de mais da metade de seus habitantes. Em 1481, se uniria à Provence e seria incorporada ao reino da França, mas logo obteria a fama de se rebelar contra o governo Central.

Após diversas invasões, guerras e lutas de poder na região nos séculos subsequentes, Marselha se tornaria principal porto militar francês no Mediterrâneo no século XVIII, mas, em 1720, a grande Peste de Marselha dizimaria 100 mil habitantes na cidade e em suas redondezas.

Entusiastas da Revolução Francesa, 500 voluntários marchariam para Paris em 1792 cantando a canção que se tornaria o hino da República Francesa, La Marseillaise. Muitos de seus monumentos seriam construídos e o crescimento de sua indústria tomaria lugar ao longo de todo o século XIX com a ascensão do império francês.

Na segunda guerra mundial, teria grande parte de seu centro antigo dinamitado, para impedir que membros da resistência se escondessem em seus edifícios, fazendo com que parte da população ficasse sem teto em decorrência disso. A partir dos anos 50, serviu como porta de entrada para mais de um milhão de imigrantes e, posteriormente, em 62, outros 150 mil provenientes da Argélia após sua independência.


A Imponência da Basilique Sainte-Marie-Majeure

A primeira parada foi a Catedral Basilique Sainte-Marie-Majeure que fica logo na saída do porto mesmo, basta atravessar a rua e subir as escadas que levam à imensa esplanada com vistas incríveis para o mar e porto. O Mistral, que é um vento típico da região, estava em furor absoluto nesse dia e quase fui literalmente levada por ele, mas a imponente catedral neobizantina que remete à arquitetura genovesa, com suas típicas listras horizontais em verde acinzentado e branco, valeu a luta contra os elementos.

A catedral de Marselha é uma das maiores do mundo com capacidade para 3000 pessoas, equivalente à de São Pedro em Roma. Ela foi construída sobre a antiga catedral do século IV, mas suas fundações são ainda mais antigas, remontando ao início do cristianismo. Desse período restam alguns mosaicos e um batistério.

Catedral Basilique Sainte-Marie-Majeure – Fotos: Chrys Rochat

Foi a última catedral construída na França e tem 200 anos. Sua construção em estilo romano-bizantino se iniciou em 1852 e levaria 40 anos, passando por 3 arquitetos.

Catedral Basilique Sainte-Marie-Majeure – Fotos: Chrys Rochat

Em 1906, a catedral foi classificada como patrimônio histórico. Em seu interior é possível ver estátuas de Botinelly e Carli, altares de Cantini, e a tumba de St. Eugène de Mazenod.

Catedral Basilique Sainte-Marie-Majeure – Fotos: Chrys Rochat


Passeio Delicioso Pelo Quartier du Panier

Ao sair da basílica e seguir pela rua lateral ao “Hotel de Police”, você encontra aquelas ruelas antigas e estreitas típicas da França medieval. Como adoro andar por essas ruazinhas observando sua arquitetura e o modo de vida do lugar! Vendo como as pessoas decoram suas portas, como estendem roupas nas janelas, como cultivam suas flores enfeitando o bairro!

O quartier du Panier é o mais antigo e vibrante bairro da cidade com suas ruelas, street art e lojinhas e bares. Para quem quiser explorar a cidade a pé, como eu, tem um livro com rotas de charme: “Le Guide Du Promeneur De Marseille” ou então o livro “Guide Du Street Art À Marseille” já que a cidade é uma prolifica galeria de Street Art a céu aberto e o livro mostra onde ela pode ser vista em várias partes da cidade.

Quartier du Panier – Foto: Chrys Rochat


Cultura Transformadora no Centre de la Vieille Charité

Logo atrás da basílica, seguindo por esse emaranhado de ruas interessantes e charmosas do quartier du Panier, você vai encontrar essa imensa estrutura “La Vieille Charité” construída para ser uma prisão para sem-tetos no início do século XVII e hoje é um centro cultural pulsante da cidade.

A história da “Vieille Charité” é no mínimo controversa e curiosa, a própria filosofia questionaria esse modelo de “caridade” na obra “História da Loucura na Idade Clássica” de Michel Foucault em 1962. O local teve sua criação decidida pelo conselho da cidade em 1622, após um decreto real que exigia a reclusão de “mendigos e indigentes”, mas apenas em 1641 as primeiras pessoas seriam abrigadas em um terreno cedido pela cidade próximo à “La Major” e sua construção se daria em 1671 encabeçada pelo arquiteto real Pierre Puget que era nascido e criado no bairro. Contudo, a finalização do projeto seria assumida por seu filho François Puget e só se daria dez anos após sua morte em 1704.

A “Vieille Charité” permaneceria uma casa de detenção até 1796, quando seria assumida pela administração dos hospitais e se tornaria hospício, asilo para idosos e lar para indigentes até 1890. Em 1905, seria colocada à disposição do exército e em 1822, abrigaria locatários desapropriados dos bairros demolidos atrás da Bourse. Em 1943, a “Vieille Charité” abrigaria famílias evacuadas do velho porto que

viviam em condições precárias e foi se degradando. Em 1951, foi classificado monumento histórico. Em 1962, os habitantes foram realocados e o local fechado até 1961, quando se inicia a restauração que levaria 25 anos para ser completada.

O local se tornaria então um centro cultural que abrigaria várias estruturas multiculturais: o Museu de Arqueologia Mediterrânea, o Museu de Artes Africanas, Oceânicas, Ameríndias (M.A.A.O.A), exposições temporárias e uma sala de cinema, “Le Miroir”. O complexo hoje é gerenciado pela Direção de museus de Marseille. Outros organismos culturais também se instalaram ali como o Centro Internacional de Poesia de Marseille (C.I.P.M.), o Centro Nacional da Pesquisa Científica (C.N.R.S) e a Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (E.H.E.S.S).

O lugar impressiona por sua extensão e arquitetura em estilo Segundo Império em pedra rosa e branca da pedreira da cidade de Couronne, a construção com quatro alas em arcos com três andares formando uma praça retangular interna onde fica a capela de cúpula oval, construída no estilo barroco. É incrível de ver como um lugar com uma história tão sombria pôde ser transformado em um local tão pulsante e enriquecedor por meio da cultura e da arte.


Marselha, Cenário de Um dos Maiores Clássicos da Literatura Francesa

Falando em arte e cultura, quem não se lembra de um dos maiores clássicos da literatura francesa, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, que foi imortalizado nas telas diversas vezes e teve a inesquecível performance de Gerard Depardieu em uma de suas melhores adaptações? O romance conta a história de Edmont Dantes que é injustamente enviado à prisão por 18 anos, até que consegue fugir e recuperar sua amada e se vingar de seu maior inimigo. Consegue adivinhar onde ficava essa prisão? Isso mesmo, no Castelo de If em Marselha.


Compras de Conveniência no Les Terrasses du Port

Descendo em direção à via principal, você vai encontrar um grande shopping center ultramoderno com mais de 170 lojas de grife e restaurantes, Les Terrasses du Port, que foi onde encontrei o cabo original para o ipad no Monoprix e me custou uns dez euros, o que me deixou feliz e bastante aliviada porque agora eu teria mais tempo para apreciar minhas últimas horas em Marselha sem tanta pressão.

Não passei muito tempo no shopping, mas ele me pareceu bastante bonito e funcional já que além de lojas de grandes marcas também têm lojinhas originais de roupas, acessórios e cosméticos, mas o bate perna em shopping teria que ficar para a próxima, já que o tempo voa e a caminhada até o porto não seria tão curta assim. E eu ainda queria parar para comer algo em algum lugar simpático e que não fosse fechada em um shopping, onde poderia estar em qualquer lugar do mundo.


Gastronomia Concept no Double Je

Foi aí que encontrei o Double Je que fica nos Voûtes de la Major logo embaixo da basílica e em frente à entrada do porto. Esse lugar, além de fofíssimo, tem donos adoráveis que me receberam amavelmente e me fizeram sentir super à vontade. Eu tinha pouco tempo para comer, usar a internet, explorar o lugar e voltar para o navio e eles fizeram de tudo para me atender e me acomodar da melhor forma e o mais rápido possível.

Esse restaurante concept/loja de roupas femininas e acessórios fica em um dos Voûtes de la Major que são os antigos entrepostos sob a catedral. A decoração é clara e colorida com tons pastéis de rosa e do pé direito alto pedem lustres e mobiles, tudo de muito bom gosto ao estilo shabby chic e a comida também é excelente. Vale super a pena voltar para uma happy hour ou jantar no local já que é um point da noite de Marselha e fica bombadex.

Double Je – Voûtes de la Major – Fotos: Divulgação


Como Tudo Que É Bom Dura Pouco

Foi pouco tempo, mas muito bem aproveitado e meu único desejo agora é regressar com mais tempo para explorar devidamente o que ainda não foi explorado: Basílica de Notre Dame de la Garde, Castelo de If, Museu de História de Marselha, Palais de Longchamp, Antigo Porto, Forte St. Nicolas, MUCEM, Forte St. Jean, Parque Borély, Caverna de Cosque, Plages Du Prao, Parque Nacional de Calanques.

Com tudo isso, como não querer visitar Marselha e mergulhar em todo esse conteúdo histórico, cultural e artístico à beira-mar? Visitar Marselha é viver um pouco da história francesa em suas ruas, respirando seu ar marítimo e perambulando pelas ruelas medievais onde circulam seus habitantes tão típicos do sul, é comer uma bouillabaisse autêntica com os peixes de rocha mediterrâneos e os aromas e sabores típicos da região, é se sentar em um café ao pôr-do-sol e tomar um Pastis, enquanto se observa os transeuntes passarem apressados em sua volta para casa. A bientôt, Marseille!

Artigo de Chrys Rochat

Mapa dos Pontos Visitados

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